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terça-feira, 5 de maio de 2009

Enchentes no Castanhão ameaçam Vale do Jaguaribe

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Quatro das 12 comportas do maior açude do Ceará já estão abertas, liberando 600 metros cúbicos de água por segundo. Capacidade chega a 90,3%

A torcida é para que a chuva não seja tanta. Se vier muita água, mais comportas do maior açude do Estado, o Castanhão, devem ser abertas. O temor é que, com a liberação de mais água, os estragos com as enchentes no Vale do Jaguaribe possam ser maiores. Quatro, das 12 comportas do Castanhão, estão abertas, liberando 600 metros cúbicos de água por segundo. O volume de água armazenada no açude passa dos 6 bilhões de metros cúbicos de água, o que representa 90,3% de sua capacidade total.

Mesmo com a liberação, tem entrado mais água no Castanhão do que saído. Na tarde de ontem, eram colocados no Castanhão 1.075 metros cúbicos de água por segundo. De domingo para ontem, o nível de água no açude subiu 10 centímetros, segundo a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh).

A situação agora depende das chuvas das próximas horas. “Se continuar sem chover ou forem chuvas finas, vai permanecer do jeito que está. Mas, se for muita chuva, no último apuro é que a gente vai abrir mais. Estamos pedindo a Deus que não chova”, diz Almeida Chaves, gerente da Cogerh. A solução é apelar para ajuda divina. Todo dia é uma situação diferente, que só depende da intensidade da chuva.

Recordes
Neste ano, a cota do Castanhão (a altura medida pela Cogerh) chegou a 104,40. A maior havia sido no ano passado - 104,30. Esse é apenas um dos muitos recordes registrados em 2009. O volume de água armazenada no Estado já passa dos 16,3 bilhões de metros cúbicos. Ou seja, 91,7% da capacidade máxima do Ceará, a maior da história cearense. Açudes sangrando nunca houve tanto. Eram 107 até ontem.

Um dos pontos positivos do armazenamento recorde é que a qualidade da água vai melhorar a partir de agora. “O importante é que, com esse volume significativo, ocorre a renovação da água”, explica Ricardo Adeodato, diretor de Operações da Cogerh. Ele lembra que o açude Banabuiú também está com comportas abertas, liberando 792 metros cúbicos de água por segundo, numa abertura de 1,20 metro em cada comporta.

Como a previsão é de chuvas isoladas nas bacias, a intenção é de que fosse diminuída, ontem ainda, a abertura das comportas do Banabuiú para 1 metro. “Isso vai melhorar a situação de Itaiçaba, que está alagada. Mas esse reflexo na cidade só vai chegar daqui a dois dias (a contar de ontem)”, comentou Ricardo.

Texto: O Povo Online
Foto: Evilásio Bezerra
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domingo, 3 de maio de 2009

Chuvas também trazem alegria para a zona rural

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Limoeiro do Norte. É cedo do dia, mas o sol desaparece – logo no sertão, que tem um sol para cada cabeça. O céu, já cheio de nuvens, prenuncia e a boca do sertanejo pronuncia: “lá vem um toró d”água”. A certeza vem no tilintar dos pingos no telhado, que mais lembra o feijão debulhando na bacia de alumínio. Feijão que, não demora muito, e está saindo do chão molhado. A meninada não perde tempo: “mãe, deixa eu ir tomar banho?!”.

E logo quem todo dia dá trabalho para se assear no banheiro, vitorioso pela insistência, corre pelas calçadas, para a primeira biqueira, para a última, no chuveiro do tamanho do céu. A chuva é como remédio e veneno – só depende da dose. Tem causado estragos para quem só pediu “para o sol se esconder um tiquinho”, mas também é motivo de alegria onde não chove em todo o resto do ano. O cheiro, os sons e a paisagem verde que floresce revelam que chuva é “coisa boa”, o homem que nem sempre está preparado para ela.

A quadra chuvosa iniciada no Ceará desde a segunda quinzena de fevereiro — no Cariri, as precipitações iniciaram em dezembro — modificou a paisagem do semi-árido. O mato perdeu o cinza e ganhou o verde. O céu, que era azul, ficou cinza. O chão ficou escurecido, porque úmido. O gado está mais “corado”, porque o capim-alimento nasce mais rapidamente. Rios que “vivem” secos recebem água corrente. Não houvesse erosão constante da mata ciliar — provocada pelo desmatamento — nem “necessidade” de se habitar na beira do rio, rio cheio seria bem mais sinônimo de fartura. O rio Jaguaribe, antes o maior rio seco do mundo, perdia esse título a cada “inverno”, mas foi perenizado de vez pelo Castanhão.

Mas onde o “Rio das Onças” encontra dificuldade para passar, é lá que arrasta o que vê pela frente, que só tenha surgido pela ação humana. “O Jaguaribe só está pedindo passagem”, afirmou o professor e ambientalista Ivan Remígio, ao ser questionado sobre o arrastamento da ponte do tipo passagem molhada entre Limoeiro do Norte e Tabuleiro, construída desviando o curso principal do rio e subestimando a força hídrica deste quando recebe uma ajuda “extra” da quadra chuvosa e do açude Castanhão.

E “o Castanhão abriu as comportas”, anuncia o Diário do Nordeste e repercute o radialista Tom Gurgel, de Limoeiro do Norte, que passa o dia pelas ruas da cidade, dirigindo o “vermelhinho da Vale” contabilizando safras, estragos, volume de açudes e divulgando onde choveu mais. Engenheiros como Getúlio Maia e Ulisses de Sousa, do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), foram enfáticos: se não existisse o Castanhão, as cidades mais baixas teriam sofrido enchentes. Então a ausência do Castanhão é o que mais deveria assustar.

A abertura das comportas do maior açude do Ceará atrai curiosos para ver o “espetáculo das águas”. Natureza e homem se juntam para proporcionar uma grande cachoeira, que tem o tamanho controlado — dependendo da quantidade de chuva, o volume do açude é equilibrado com a abertura das comportas, levando água para o rio Jaguaribe. O entorno da barragem está verde desde as primeiras chuvas, e com a abertura das comportas, o respingar da queda d’água perpetua a sensação de chuva. Fotografar de muito perto, só com um lenço para enxugar, a cada clique, a lente da câmera. E numa revelação da versatilidade do semi-árido, em cima de uma pedreira nascem cactos, mandacarus e flores de vários tipos e tamanhos.

Infância revivida

Enquanto a chuva cai, todas as biqueiras possíveis já foram visitadas pela garotada — o que inclui os “meninos” acima dos 30, 40, 70 anos, já que “tomar banho de chuva é reviver a infância”, afirma o servidor público José Nogueira, 51 anos de idade e “uns oito” quando está na chuva. A água que cai do céu é símbolo de sublimação e misticismo para religiosos ou pagãos. Os cristãos vêem como ferramenta de fartura, pois proporciona a produção agrícola na terra, o que, mesmo para os egípcios, bem antes de Cristo, representava fertilidade e renascimento. Para os mais objetivos, chuva leva ao plantio, que leva ao amadurecimento, que leva à boa colheita. Se chove na medida, “a fartura é garantida”, afirma seu Antônio Clímaco, 76 anos. Ele foi à sede da Empresa de Assistência Técnica e Extensão do Ceará (Ematerce) em Limoeiro buscar sementes de feijão e de milho. Volta contente para casa em sua bicicleta “carregada” de esperança. E não é que o “véi Antôin”, como é chamado, vai ter boa colheita este ano? Se tudo der certo, então será o tão esperado período de “vacas gordas”.

A Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) alertou que deve chover ainda por todo o mês de maio. Para onde existe risco, o alerta; para quem tem o privilégio de ver fartura na chuva, a esperança. Enquanto tiver água, tem banho de biqueira, verde no mato, cinza no céu.

Melquíades Júnior
Colaborador

Texto: Diário do Nordeste
Foto:
Melquíades Júnior
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sábado, 2 de maio de 2009

Inundação atinge 350 famílias

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Cheia dos rios Jaguaribe e Banabuiú prejudicou acesso às comunidades da Ilha de Santa Terezinha

Limoeiro do Norte. A triste e involuntária partida revela o sofrimento de centenas de famílias atingidas pelas chuvas em Limoeiro do Norte. Com a cheia dos rios Jaguaribe e Banabuiú, comunidades ficaram ilhadas. As águas invadiram as casas e construções de barro desabaram. Muitas famílias “perderam tudo”, outras tentam resgatar o pouco que resta em pequenas embarcações e são levadas para abrigos em escolas, igrejas e creches. Várias fossas estouraram, e a água da chuva se mistura aos esgotos domésticos. A prefeitura municipal, que decretou situação de emergência, está fornecendo mantimentos roupas e comidas às cerca de 350 famílias atingidas. A população teme que se forem abertas mais comportas do Castanhão, os abrigos nas partes mais altas também recebam água, mas o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) e Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) não deram qualquer previsão de novas aberturas.

“As minhas coisinhas, tanto que lutei pra conseguir, perdi quase tudo, a sorte é que tô viva”. O drama é da dona de casa Rosineide Lopes, de 32 anos, que viu sua casa de taipa ficar desabar depois de ser invadida pelas águas do rio Jaguaribe, depois da chuva de 140mm em apenas duas horas que atingiu a cidade no fim da tarde da última quarta-feira. Rosineide, desabrigada da Ilha de Santa Terezinha, levou os dois filhos para um abrigo, mas ainda tenta recuperar algum móvel, ainda que encharcado de água.

A desempregada Francisca Maria da Costa Silva juntou os “cacarecos” de casa e pegou o barco em direção à terra firme, no centro de Limoeiro. Levou dois de seus três filhos para o abrigo no bairro Antônio Holanda. Na escola e na creche da comunidade, já há superlotação. Antes mesmo do feriado, as aulas foram suspensas nas escolas municipais, que hoje estão servindo de abrigo.

Durante todo o dia de ontem, centenas de famílias faziam o cadastro com a coordenação municipal da Defesa Civil para o recebimento de cestas básicas, colchonetes e lençóis. O prefeito João Dilmar esteve na área alagada, acompanhando o cadastro das famílias. Visitou as ruínas da casa de Rosineide Lopes, ainda com risco de mais desabamentos. Os vereadores Carlos Barão, Hélio Herbster, Raimundo Valdir e Mixico Diógenes, acompanharam o resgate das famílias na Ilha de Santa Terezinha, literalmente ilhada pelas águas dos dois principais rios da região.

Na margem direita do rio Jaguaribe, já no centro da cidade, construções de alvenaria ameaçam desabar. Alguns trechos visitados pela reportagem estavam com água na cintura, e a fedentina era forte, causada pelo transbordamento das fossas, misturado às águas da cheia. No mutirão de solidariedade, a principal missão dos policiais militares também era o de atender às vítimas das inundações.

Mas ainda são poucos e frágeis os barcos que fazem a travessia, carregando pessoas, motos, geladeiras, fogões e guarda-roupas. Três canoas fazem a travessia da Ilha de Santa Terezinha para o centro da cidade, das quais duas cobravam R$ 1 para ida e volta de cada vítima. A comunidade está inundada, de um lado, pela cheia do Jaguaribe e, de outro, pela do rio Banabuiú. Os moradores apontam que a solução seria a criação de um córrego entre os dois rios, para facilitar o escoamento da água que ambos recebem do açude Castanhão, que até ontem liberava, por duas comportas, 600 metros cúbicos por segundo para a calha do Jaguaribe, que elevou em 39 centimetros nesta semana. Na tarde de ontem o Castanhão estava na cota 104,05 metros acima do nível do mar e um acúmulo de 5,9 bilhões de metros cúbicos, faltando pouco mais de 25 centímetros para superar o recorde de acúmulo do ano passado.

A situação no município de Itaiçaba também é preocupante. O açude transbordou comprometendo as famílias ribeirinhas. Na tentativa de conter as inundações e evitar mais danos, o prefeito Frank Gomes autorizou a abertura de uma barragem secundária para o escoamento da água.

Melquíades Júnior
Colaborador

Mais informações:

Núcleo de Apoio as Vítimas das Chuvas em Limoeiro
(88) 3423.1340
Prefeitura Municipal de Limoeiro
(88) 3423.1783

Texto: Diario do Nordeste
Foto: Melquíades Junior
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